quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
Simão como Herói Romântico.
Caracterização das Personagens- Amor de Perdição.
| João da Cruz, Mariana e Simão no filme Amor de Perdição. |
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| Teresa e Tadeu de Albuquerque no filme Amor de Perdição. |
- Simão: o narrador da obra na introdução faz uma caracterização de Simão. Este passa a dizer: “Simão António Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro e estudante na universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa(…) filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita Preciosa Caldeirão Castelo Branco; estatura ordinária, cara redonda, olhos castanhos, cabelo e barba preta, vestido com jaqueta de baetão azul, colete de fustão pintado e cala de pano pedrês.” Após a visão de Teresa, Simão transforma-se: distancia-se da ralé de Viseu; torna-se caseiro; cumpre os seus deveres de estudante; passeia pelo campo, procurando o espaço natural, em detrimento do espaço social. Mas quando Teresa é obrigada a sair da janela, local onde via Simão e, posteriormente, quando lhe comunica o desejo do seu pai de que ela se case com o seu primo Baltasar, Simão revela-se de novo rebelde. A par desta faceta, irá porém surgir uma outra: a sua nobreza de alma, que se manifesta no momento em que deseja poupar um dos criados de Baltasar, que tentara matar Simão, pelo facto de o homem se encontrar ferido.O seu sentimento exacerbado de honra é também notável – ele manifesta-se pelo facto de Simão enfrentar sempre aqueles que se lhes opõem, pelo facto de se ter negado a fugir, depois de ter morto Baltasar, em legítima defesa, e ainda por recusar qualquer ajuda da família, aceitando a sua condenação à forca e, depois, ao degredo. O seu código de honra conduzi-lo-á, em última análise, à sua tragédia.O sentimento de dignidade é, por outro lado, inseparável da possibilidade de realização do seu amor – é assim que Simão não acede ao pedido de Teresa, para que cumpra os dez anos de pena, em Portugal, na cadeia.
- Teresa: Teresa representa um tipo vulgar na galeria feminina das heroínas românticas do tempo: amorosa angelical, vítima indefesa num mundo que não lhe pertence, porque organizado para servir apenas o egoísmo arbitrário dos homens, é um ente sensível, frágil, tendencionalmente incorpóreo votado pela fatalidade para o deperecimento e a aniquilação. Mas essa sua personalidade ganha certa força na alternância desta fraqueza com uma também sua própria vocação para morrer insubmissa. É que no fundo nada consegue deter a determinação a que se entrega. “A desgraça não abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus projectos.” – escreve ela a Simão.
- Mariana: Mariana é a figura mais humana e mais complexa da obra. Mariana é vista como um símbolo de gratidão desinteressada: é a enfermeira sempre vigilante do filho do desembargador Domingos Botelho que salvara seu pai da forca. É um símbolo de generosidade discreta e delicada, pois dá ao hóspede bens pessoais, cuidava do preso com abundância e limpeza, e a todos dizia que ali estava por ordem e à custa da senhora D. Rita Preciosa. Mariana como um símbolo de amor humilde, puro: contenta-se com amar sem ser amada, fazendo do amor um serviço gratuito, uma dádiva prestada sem quaisquer esperanças de reciprocidade.
- Baltasar Coutinho: Baltasar vive na dupla função para que o autor o criou: ser, por um lado, uma simples peça dinâmica da intriga; por outro, surgir, pelos defeitos que encarna (covardia, perversão pelo interesse do sentimento amoroso, cinismo, vaidade, desdém), como elemento contrastante de Simão, cujas qualidades e simpatia avultam neste jogo de oposições intencionais.
- Tadeu de Albuquerque e Domingos Botelho: Estas duas personagens não diferem fundamentalmente uma da outra, como símbolos que são de pais despóticos, cuja autoridade se escuda por detrás de princípios morais de tónica puramente formal, já que sempre traem este ou aquele interesse pessoa mesquinho, manipuladores arbitrários que são de pessoas e instituições pela força do dinheiro, da pressão hierárquica e das relações comprometidas. Tadeu é figura mais conseguida que a de Botelho – sobretudo quando, para o fim da história, Camilo o descreve com os olhos encovados a reverem o suor e o sangue de uma raiva que pedia debalde vingança.
- João da Cruz: O ferrador ergue-se, ainda sobre o esqueleto do bom bandido, tão caro a ficção ultra-romântica, que Camilo nele de certo modo e insinua e absolve na apóstrofe com que comenta a morte do generoso protetor de seu tio paterno. Mas a carne que veste esqueleto é viva – e tão naturalmente viva, que até a função dinâmica para que o narrador criou a figura se perde e apaga.
- D. Rita:representa a convencionalidade do sentimento materno – age mais por obrigação familiar do que por motivos afetivos; ajuda Simão porque esse é o seu papel e não porque o amor de mãe a leve a perdoar e a compreender as atitudes do filho.
- Ritinha: distingue-se das outras irmãs de Simão pela sua capacidade afetiva e representa, para Simão, o único laço familiar genuíno, porque é conduzida por aquilo que sente e não pelas convenções que lhe são impostas. A sua ligação a Simão leva-a a ser ela a relatora da sua história ao autor da obra, quando este era criança.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Amor de Perdição.
- Título e Subtítulo
Amor de Perdição
tem como subtítulo Memórias de uma
família. De facto, o autor narra episódios da família Correia Botelho, ou
seja, muitas das situações vividas pelo escritor e pela sua própria família. Os
seus fundamentos são históricos, embora não se possa determinar com exatidão até
onde vai a verdade histórica e onde começa a fantasia. Simão Botelho existiu na
realidade. Por detrás dele, tio de Camilo, o próprio escritor apaixonado e
desequilibrado.
- Espaço e tempo
O
espaço físico, em Amor de Perdição,
conhece um afunilamento progressivo à medida que a acção trágica se encaminha
para o seu clímax e, posteriormente, para o desenlace final. Assim, de um
espaço amplo exterior onde as personagens evoluem livremente, passa-se para um
espaço fechado e reduzido onde as personagens são encarceradas. Este espaço
reduzido simboliza a prisão da própria vida, visto que estão enclausuradas na
dimensão da própria tragédia.
O tempo da obra é
caracterizado como diegético. Na introdução, abarcam-se 40 anos, são os
antepassados de Simão.
A acção decorre em 6 anos
(1801 - 1807):
· 1801, Domingos Botelho
corregedor em Viseu, Simão tem 15 anos.
· 1803, Teresa escreve uma
carta a Simão, revelando as intenções de seu pai de a enviar para um convento.
· 1804, Simão é preso.
· Prisão de Simão de 1805 a
1807. Antes de embarcar para o degredo, fica 20 meses na prisão.
· 17/3/1807, Simão parte
para a Índia.
· 28/3/1807, ao romper da
manhã, Simão morre.
· tempo do discurso (forma
como o narrador elabore o seu relato).
O narrador segue a
cronologia acima apresentada, narrando de forma cronológica os acontecimentos.
- Linguagem, estilo e estrutura da obra
O livro de Camilo é rico em cartas entre Simão e Teresa. O discurso
epistolar contém uma linguagem emotiva, apelativa, exclamativa e expressiva. As
cartas têm frequentemente frases curtas e vocativos, como “Não receies nada por
mim, Simão.”
O livro também é rico em diálogos e adjetivos. Os adjetivos estão presentes
em todas as fases do romance: “faca pavorosa”, “luz mortiça da lâmpada”, “amor
discreto e cauteloso”.
A frase “Amou, perdeu-se e
morreu amando” pode ser utilizada para sintetizar a obra Amor de Perdição da seguinte maneira: “Amou” representa a
introdução da obra, onde faz referência a dados biográficos do Camilo e a apresentação
global do infortúnio de Simão Botelho. “perdeu-se”, correspondendo ao
desenvolvimento da obra que vai do capítulo I até ao capítulo XX. Ocorrem
vários factos como a paixão entre Teresa e Simão. Por fim, “morreu amando”,
reenvia para o desfecho da obra com a morte trágica de Simão e o suicido de
Mariana.
- Narrador e Narratário.
Podemos caracterizar o
narrador como heterodiegéitico, é apenas considerado narrador e não personagens
pois este não participa na ação acabando por recorrer á terceira pessoa
gramatical. É omnisciente pois tem conhecimento de tudo o que se passa com a
história e com as personagens.
Camilo Castelo Branco
Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco nasceu
em Lisboa a 16 de março de 1825. Filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco e de Jacinta Rosa do Espírito Santo
Ferreira,
Camilo foi registado como filho de mãe incógnita, pelo que se diz, porque o seu
pai e a sua avó não queriam que o nome Castelo Branco estivesse envolvido com
alguém de tão humilde condição. A morte do pai obrigou-o a ir viver para Trás-os-Montes. Como era uma criança
sensível e muito inteligente, sofreu grandes perturbações com todos os
acontecimentos da sua infância. Ao longo da sua existência, revelou-se um
falhado nos estudos e nos amores. As vicissitudes da
vida fazem-lhe despoletar a ideia de que a fatalidade e a desgraça são destinos
a que não pode escapar. Foi um profissional das letras multifacetado, cuja obra o posicionou com uma
das figuras mais eminentes da literatura portuguesa. Apaixona-se por Ana
Augusta Vieira Plácido. Ana Plácido era uma mulher casada mas Camilo consegue
seduzi-la. Fogem os dois mas acabam por serem capturados e julgados pelas
autoridades acabando por serem enviados para a Cadeia da Relação do Porto, onde
Camilo escreve a obra Amor de Perdição.
O caso de Ana Plácido e de Camilo Castelo Branco emocionou a opinião pública,
pelo seu conteúdo tipicamente romântico de amor contrariado. Suicidou-se a 1 de junho de 1890, na freguesia de
Ceide, Vila Nova de Famalicão.Fontes: https://pt.wikipedia.org/wiki/Camilo_Castelo_Branco#Bibliografia
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
Um Auto de Gil Vicente.
Um Auto de Gil Vicente escrito entre 11 de junho e 10 de julho em 1838. Marcou a sua opção por uma dramaturgia nacional de inspiração romântica que, anos mais tarde, teria a sua mais elevada realização artística em Frei Luís de Sousa. Um Auto de Gil Vicente é um drama histórico, em três atos, com a ação a decorrer na corte de D.Manuel para celebrar a partida da Infanta D. Beatriz para Saboia, onde casaria com Carlos III. Gil Vicente prepara a representação da peça Cortes de Júpiter e é em torno deste acontecimento que se desenrola a trama, insinuando os amores de Bernardim Ribeiro e da Infanta D. Beatriz.
A peça estreou-se a 15 de Agosto do mesmo ano mas só em 1841 é que foi publicada. A obra apresenta figuras históricas em momentos de grandeza espiritual.
Garrett, o autor da obra, na 1ª edição da peça juntou a declaração: " [...] Eu não quis só fazer um drama, mas sim um drama de outro drama e ressuscitar Gil Vicente a ver se ressuscitava o teatro".
A ação decorre na corte de D. Manuel, tendo como polos de atuação a figura de Gil Vicente e a de Bernardim Ribeiro.
As personagens constituem três grupos:
- As que têm conhecimento do amor entre Bernardim Ribeiro e a Infanta D. Beatriz (que é o caso de Paula, Pêro Sáfio e D. Manuel);
- As que suspeitam (que é o caso dos embaixadores italianos);
- As que ignoram (que é o caso do resto das personagens).
- D. Manuel;
- Infanta D. Beatriz;
- Bernardim Ribeiro;
- Gil Vicente;
- Pêro Sáfio;
- Paula Vicente;
- Conde de Vila Nova;
- Garcia de Resende;
- Barão de Saint- Germain;
- Dr. Jofre Passeiro;
- Chatel;
- Bispo de Targa;
- Mordomo-mor do rei D. Manuel;
- Um Pajem;
- Dona Inês de Melo;
- Joana do Taco.
As referências a aspetos históricos e culturais aparecem ao longo do texto e pintam uma moldura histórica.
O teatro português até ao século XIX
Houve dois momentos em que as estruturas socioeconómicas e politicas se mostraram particularmente propícias à eclosão do fenómeno teatral. O primeiro corresponde aos reinados á época áurea dos Descobrimentos, da afirmação de Portugal na Europa, nos reinados de D.Manuel e de D. João III, do grande afluxo de riquezas do exterior e do consequente domínio da corte na vida nacional.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
Um Auto de Gil Vicente: estrutura dramática e ideológica.
O auto de Gil Vincente é representado na corte de D. Manuel I por ocasião do casamento de D. Betariz com o duque de Saboia surge, portanto, como o centro estruturador da ação, à volta do qual se constrói a intriga dos amores de Bernardim e da Infanta, ciumento aglutinador dos vários conflitos que compõem a ação. O drama de Garrett é a própria representação do auto de Gil Vicente, tornando-se assim o teatro metáfora da própria vida. Garrett tenta ressuscitar o teatro português: reaproximá-lo, povoá-lo de factos reais e de pessoas reais, dotadas de sentimentos comuns, como o amor, a paixão, o ciúme, a suspeita, o orgulho... É o demiurgo, o homem que vive para a sua arte, portador da pureza da única classe social que, segundo alguns românticos, está ainda próxima da natureza: o povo. O amor surge como valor supremo e móbil determinante da conduta das personagens centrais. A função pedagógica do drama, sabiamente veiculada no doseamento do dramático e do burlesco, do apelo ao ideal e do chamamento à realidade num quadro referencialmente desligado da própria realidade contemporânea mas saturado de símbolos que remetem para essa mesma realidade.
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