sábado, 1 de outubro de 2016

Análise do poema "Não Te Amo"

O assunto do poema “Não te amo” de Almeida Garrett é a oposição entre o amor e o desejo. Na primeira estrofe o sujeito poético evidencia que não tem amor de alma pela mulher, mas sim desejo. Esta oposição está na origem do dilema que atormenta o sujeito poético, aumenta a sua indefinição. Na segunda estrofe está expressa a ideia de que a vida do sujeito poético não é movida pelo amor espiritual, usando então uma hipérbole “E a vida – nem sentida/A traga eu já comigo.”
Resultado de imagem para não te amo almeida garrettNa terceira estrofe, encontramos a presença da mulher demónio, ou seja, desperta no sujeito um amor carnal, capaz de o dominar, mas por mais paixão que sinta, nunca chega a ser amor. No segundo verso da segunda estrofe, há uma dupla adjetivação que desta a natureza contraditória do sujeito poético. Na quarta e quinta estrofe, o sujeito poético não consegue resistir à mulher e diz que se a amasse seria algo forçado. Depois da quinta estrofe, há uma divisão na composição poética. A sexta estrofe, ou seja, a última estrofe funciona como uma autocrítica, em relação de o Eu lírico querer tanto esta mulher, mas não a amar.Há dois verbos cujos significados jogam os lados deste conflito: amar e querer. Amar do lado da alma e querer do lado do corpo. E é neste jogo reiterado ao longo do poema que se estende a insistente afirmação de que entre este eu e este tu não se passou do plano terreno ao plano divino, não se atingiram as sublimes alturas do amor e se rasteja em terror e infâmia num querer que enfurece o sangue, mas deixa a alma morta.
Este poema faz lembrar as cantigas de amor, refira-se o paralelismo na construção do poema e o registo corrente e que sublinham as características românticas. Do Romantismo referir ainda o tom confessional e intimista; alusão a elementos mórbidos como jazigo, aziaga estrela, má hora, perdição, feitiço azado, medo, terror; características da poesia de alcova; liberdade/irregularidade métrica; um certo tom teatral; excesso passional; sentimento de culpa; autocrítica própria do sujeito poético; 
  • Antítese- intensificando a contradição entre Amar e Querer;
  • Dupla Adjetivação;
  • Apóstrofe;
  • Pergunta de retórica;
  • Paradoxo;
  • Hipérbole.

Não Te Amo- Almeida Garrett

Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma. 
      E eu n’alma - tenho a calma, 
      A calma - do jazigo. 
      Ai! não te amo, não. 

Não te amo, quero-te: o amor é vida. 
      E a vida - nem sentida 
      A trago eu já comigo. 
      Ai, não te amo, não! 

Ai! não te amo, não; e só te quero 
      De um querer bruto e fero 
      Que o sangue me devora, 
      Não chega ao coração. 

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela. 
      Quem ama a aziaga estrela 
      Que lhe luz na má hora 
      Da sua perdição? 

E quero-te, e não te amo, que é forçado, 
      De mau, feitiço azado 
      Este indigno furor. 
      Mas oh! não te amo, não. 

E infame sou, porque te quero; e tanto 
      Que de mim tenho espanto, 
      De ti medo e terror... 
      Mas amar!... não te amo, não. 


Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas' 

Almeida Garrett


Folhas Caídas.

É uma colectânea de poesias escritas por Almeida Garrett e publicada na fase final da sua vida, em Abril de 1853, um ano antes de morrer, em 9 de dezembro de 1854. Segundo diversos estudiosos, Garrett escreve a obra como forma de demonstrar seu amor a Rosa Montufar (a viscondessa da Luz).
São inúmeras as marcas românticas presentes nos poemas desta colectânea: a)Tratamento do tema dicotomia amor/paixão; b)Confessionalismo literário; c)Defesa do mito de Rousseau do bom selvagem – crença na corrupção inerente ao homem social que se opõe à sua bondade inata;
d) Apologia da liberdade de sentir/amar sem quaisquer constrangimentos sociais – ex: o casamento; e) Dicotomia mulher-anjo / mulher fatal; f) Concepção de amor como força avassaladora, tirana e irracional; g) Presença de alguns temas e formas populares – ex: a pesca; utilização da quadra (quatro versos numa estrofe) e da redondilha maior e menor (sete e cinco sílabas métricas).
A linguagem do autor é simples, por vezes coloquial e familiar, não sendo, no entanto, vulgar ou descuidada. O estilo é hiperbólico, exclamativo, socorrendo-se de inúmeros artifícios como: 
  • Metáfora – Pescador da barca bela / onde vais pescar com ela…-; 
  • Interrogação rétorica– Anjo és tu ou és mulher?-;
  • Adjetivação expressiva - e só te quero / de um querer bruto e fero / que não chega ao coração…; 
  • Antitese – Não te amo, quero-te! 
  • Exclamação – Olha bem estes sítios queridos! / vê-os bem neste olhar derradeiro!…; 
  • Personificação – olha o verde do triste pinheiro, entre muitos outros.
Garrett assume-se nesta obra como uma personagem que dialoga (apesar de a presença do interlocutor estar apenas subentendida), dirigindo palavras de doce amor ou raiva e desespero ao objecto do seu amor/paixão, ou ainda dando conselhos a um tu que está a iniciar-se na aventura do amor. 

Fontes: https://pt.wikipedia.org/wiki/Folhas_Ca%C3%ADdas

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O Romantismo.

Resultado de imagem para RomantismoO romantismo foi um movimento artístico, político e filosófico surgido nas últimas décadas do século XVIII na Europa que durou por grande parte do século XIX. Caracterizou-se como uma visão de mundo contrária ao racionalismo e ao iluminismo e buscou um nacionalismo que viria a consolidar os estados nacionais na Europa.
Inicialmente apenas uma atitude, um estado de espírito, o romantismo toma mais tarde a forma de um movimento, e o espírito romântico passa a designar toda uma visão de mundo centrada no indivíduo. Os autores românticos voltaram-se cada vez mais para si mesmos, retratando o drama humano, amores trágicos, ideais utópicos e desejos de escapismo. Se o século XVIII foi marcado pela objetividade, pelo iluminismo e pela razão, o início do século XIX seria marcado pelo lirismo, pela subjetividade, pela emoção e pelo eu.
As origens do movimento são de diversa natureza, podendo falar-se de origens sociais, politicas, filosóficas e literárias. 
  • Origens Sociais: o desenvolvimento de um novo gosto, diferente do gosto clássico, prende-se ao desenvolvimento da burguesia e ao aumento do número de leitores de origem burguesa.
  • Origens Politicas: paralelamente às transformações sociais, ocorreram transformações politicas no sentido da construção de regimes mais democráticos, em Inglaterra( Revolução Inglesa de 1688) e na França- Revolução Francesa, surgida no final do século XVIII- uma revolução em que se deu grande importância ao Homem, ao individuo à liberdade, à igualdade e fraternidade entre os cidadãos. Ao entusiasmo revolucionário de cariz liberal suceder-se-ia, no entanto, o desencanto perante as promessas não cumpridas, como foi o caso de muitos românticos europeus, como Almeida Garrett.
  • Origens Filosóficas: prendem-se com o desenvolvimento das filosofias idealistas na Alemanha, com Fichte e Kant.
  • Origens Literárias: os romantismos europeus vão entroncar nos pré-românticos e, em especial, no movimento alemão do "Sturm und Drang'' (Tempestade e Ímpeto).
O Romantismo significou uma rotura, uma oposição ao Classicismo. O Romantismo aboliu a noção de géneros rígidos dos Clássicos; mas, em compensação, criou géneros novos, mistos:

  • no domínio narrativo: o romance histórico(misto de História e de ficção; o romance psicológico(misto de psicologia e de ficção); o romance contemporâneo, de costumes( misto de sociologia e de ficção.)
  • no domínio da poesia, do lirismo: a poesia intimista, a poesia filosófica e a metafisica e, sobretudo, o poema em prosa.
  • no domínio dramático: a tragédia e a comédia clássicas foram substituídas pelo drama, misto de sublime e de grotesco.
Substitui a natureza e a paisagem clássicas, feitas de harmonia e luz, pela natureza romântica, feita da noite, do luar, do pôr do sol, do outono, da tempestade, do mar em revolta, do bosque sombrio, das ruínas medievais- uma natureza dinâmica e não estática, como era a natureza clássica.
Inovou a linguagem e o estilo. Apostou numa linguagem coloquial, simples, um estilo digressivo e solto, com mistura de níveis de língua, com enriquecimento lexical nos domínios da introdução de neologismos e estrangeirismos, e um notório enriquecimento nos domínios da adjectivação e da metáfora.
O Romantismo em Portugal.
Iniciou-se com Almeida Garrett, em 1825. Durou cerca de 40 anos terminando por volta de 1865. A primeira geração do romantismo em Portugal vai de 1825 a 1840. Os principais autores são Almeida GarrettAlexandre HerculanoAntônio Feliciano de Castilho. A segunda geração, de 1840 a 1860, tem como principais autores, Camilo Castelo Branco e Soares de Passos. A terceira geração, pré-realista, de 1860 a 1870, aproximadamente, teve como principais autores Júlio Dinis e João de Deus.
Na temática da poesia e da ficção, a par do amor platónico, aspiração à mulher-anjo abundam os sentimentos fortes, carregados- ciúme, vingança, desespero- a exigirem o estilo exclamativo. O Romantismo constitui uma tomada de consciência, a conquista dum senso crítico novo aplicado aos fenómenos da cultura. Começa-se a relacionar o Homem com o meio a que pertence, a época de que é produto. 

Fontes: https://pt.wikipedia.org/wiki/Romantismo#Romantismo_em_Portugal
CARDOSO, Elsa e SILVA, Pedro, 2016, Viagens Literatura Portuguesa 11º ano, Porto: Porto Editora.

O Contexto Político e Social do Romantismo Português

O nosso movimento romântico surgiu no contexto das lutas liberais que, a partir de 1820, constituíram o acontecimento que marcou definitivamente a nossa História política e social do século XIX e o ponto de viragem para a modernidade.
O eco das ideias da Revolução Francesa chegara já aos nossos pré-românticos, deixando marcas na sua poesia, principalmente, na poesia e vivências da Marquesa de Alorna e Bocage.
Posteriormente, na sequência das Invasões Francesas, de 1807-1810, as ideias liberais começaram a difundir-se e a ganhar adeptos.
Em 1820, deu-se uma revolta militar no Porto, revolta de carácter liberal, que levou a eleições para as Cortes no ano seguinte e que faz regressar o rei a Portugal. Em 1822 é jurada em Lisboa a 1ª Constituição liberal. Nesse mesmo ano, o herdeiro real, D.Pedro IV proclama a independência da colónia brasileira, de que se tornou Imperador com o nome de Pedro I.

Em 1823, eclode a Vila-Francada, movimento militar reaccionário, liderado pelo Infante D.Miguel, irmão  de D.Pedro. D.Miguel, vitorioso do golpe, suspende, então, a Constituição e encerra as Cortes. Em 1824, o mesmo D.Miguel lidera novo movimento reacionário, destinado a destituir seu pai, D.João VI. 
É a altura de D. Pedro, herdeiro legítimo do trono de Portugal, renunciar ao seu título de Imperador do Brasil e vir para Portugal. Como esta era ainda menor, D. Miguel é designado regente, tendo jurado a Carta Constitucional, que o seu irmão outorgara. Pouco depois, porém, dissolveu as Cortes e fez-se nomear como rei absoluto; na sequência, novas perseguições aos liberais. Inicia-se então uma Guerra Civil, opondo absolutistas, sob comando de D. Miguel e apoiados pela Igreja e liberais, liberados por D. Pedro. A guerra prolonga-se por três anos, deixando profundas feridas entre os que a fizeram e a sofreram.
Não foi fácil, porém, o período que se seguiu, nomeadamente com as lutas politicas havidas entre os defensores da Carta Constitucional. 
No entanto, era já o final do Antigo Regime e a vitória dos novos tempos, marcados pelo poder da burguesia liberal vitoriosa. Importantes medidas foram tomadas, como a abolição dos morgadios e dos direitos senhoriais, o confisco dos bens da Igreja e a extinção das ordens religiosas.
A partir de 1851, teve lugar um movimento militar anticabralista, liderado pelo Duque de Saldanha, e incentivado por algumas grandes personalidades liberais, como Alexandre Herculano, em cuja casa, de resto, a revolução foi preparada.
Foi justamente no contexto das lutas liberais e pela consolidação da revolução liberal que se desenvolveu entre nós o Romantismo que nasceu em parte no exílio, com a chamada geração dos Românticos Vintistas.

Fonte: CARDOSO, Elsa e SILVA, Pedro, 2016, Viagens Literatura Portuguesa 11º ano, Porto: Porto Editora.

Almeida Garrett

João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett nasceu no Porto a 4 de fevereiro de 1799 e faleceu em Lisboa a 9 de dezembro de 1854. Foi um escritor  dramaturgo românticooradorpar do reino, ministro e secretário de estado honorário português.

Almeida Garrett pode definir-se como o escritor que representa um tempo que é sobretudo de transição, entre um Neoclassicismo com marcas visíveis do pensamento iluminista e um Romantismo que Garrett tratou de difundir entre nós.
Tal como acontece com outros escritores da nossa Literatura (Camões e Bocage, por exemplo), Garrett constitui uma personalidade já de si com uma dimensão verdadeiramente literária, no sentido em que é dotado de uma contextura psicológica peculiar.
Garrett convida a uma espécie de fusão entre a representação literária de temas e atitudes românticas e a vivência, no quotidiano, desses temas e atitudes – ainda que eventualmente seja difícil distinguir o que nela existe de autêntico do que é encenado.
O carácter multiforme da psicologia garrettiana muito tem que ver com uma vida literária que se desenrola sob o signo da mudança: o Neoclassicismo ao Romantismo, Garrett experimente soluções experimenta soluções estéticas inovadoras, sem nunca postergar por inteiro, é bom notar, a lição neoclássica que fora da sua formação.

O Garrett romântico manifesta-se seduzido pelos valores do Romantismo, o jovem poeta exilado fixa no prólogo do Camões princípios que regem uma criação literária dominada por procedimentos tipicamente românticos: a altiva consciência da inovação, a rejeição das regras, o primado do sentimento, o culto da independência, nos planos estéticos e político.   
Fontes: 
CARDOSO, Elsa e SILVA, Pedro, 2016, Viagens Literatura Portuguesa 11º ano, Porto: Porto Editora.